Medo e tensão no Oeste – Revista Rolling Stone

Edição 49 / outubro de 2010

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O excesso de céu e águas que se abre à minha frente a partir da proa do barco é deslumbrante. A floresta é uma linha verdejante suave no horizonte, que marca a distinção entre o azul cósmico e o azul mais escuro do rio. Nas margens, praias com areias brancas. Dinael Cardoso, liderança indígena e uma das personalidades mais ativas no Movimento, me acompanha. Chegando a uma pequena comunidade estendida na beira do rio Arapiuns, ele aponta para uma dessas margens paradisíacas, que poderiam estar no Caribe, escoltadas pelo verde da mata: “Foi ali, ano passado. Vai fazer um ano agora que as balsas queimaram”.

É apenas uma ponta de areia, chamada São Pedro, que marca uma confluência. A partir daqui, cada vez mais o Arapiuns, afluente do Tapajós, se fecha, até culminar em uma bifurcação. De um lado, o Maró. Do outro, o Aruã. Essa terra em frente, para onde sigo, se chama Gleba Nova Olinda. O fogo de um ano antes selou a ligação política entre a insurgência presente na Nova Olinda e as comunidades ribeirinhas ao longo do Arapiuns, criando o Movimento em Defesa da Vida e da Cultura do Rio Arapiuns. Em oposição estariam os empresários que comercializam madeira da região, as comunidades que são ligadas a esses empresários e os agentes econômicos com interesse mais amplo: a mineradora Alcoa, que explora bauxita e faz prospecção em toda a área, e os produtores de soja.

Não apenas pelo significado político, mas também pela dimensão social de unir as comunidades, o protesto e o fogo rebelde em balsas carregadas de madeira marcou definitivamente essa curva do Arapiuns.

O fogo explodiu em chamas gigantes pelo meio do rio, de um tamanho nunca antes visto, em um calor nunca antes sentido. As labaredas invadiram o breu, seguiram o outro dia e queimaram por mais duas noites. As comunidades da beira do rio estavam unidas na revolta.

O sindicato dos trabalhadores rurais, que convocou a manifestação, havia abandonado a luta. O Procurador Federal declarou que havia indícios de extração irregular da madeira. A Secretaria de Meio Ambiente (Sema) veio fiscalizar a origem das toras e disse que tudo era legal e dentro dos conformes. Ou seja, a madeira continuaria saindo. “Sendo saqueada”, pensaram as lideranças que estavam no local. Não houve ordem de ninguém para dar início ao fogo, mas uma reação coletiva, em assembleias. “O motivador maior da queima foi a conivência do Estado com a exploração madeireira. O Estado não quis discutir com as comunidades, mandou apenas um técnico para fiscalizar. Isso revoltou os manifestantes, que esperaram por um mês”, afirmou uma liderança que não quis ser identificada.

Quase um ano atrás, no dia 10 de novembro, cansada de uma manifestação que já durava um mês, a multidão queimou duas balsas carregadas de madeira, avaliadas em R$ 5 milhões. Se a região vivia tempos de medo e tensão, o ato tornou-se um divisor, o momento em que as comunidades que lutam contra os empresários perceberam que poderiam se insurgir.

Neste último ano, sem a demarcação da terra indígena pretendida pelos índios borari, sem a regularização dos assentamentos das comunidades ribeirinhas, mas com as autorizações de corte de madeira na área e o patrimônio florestal sendo assim comercializado, o ambiente na Gleba Nova Olinda está tomado de medo e tensão.

“O medo sempre existiu. Mas eu não fiquei com medo de abandonar a luta. Fiquei com mais vontade de lutar”, diz Odair José Alves de Sousa, o Dadá, 28 anos, segundo cacique da aldeia borari Novo Lugar (o primeiro cacique é seu tio Higino, mais velho e experiente). À noite, a água do rio é ainda mais escura. Reflete as estrelas tão nitidamente que a sensação é a de que o barco levita. A aldeia Novo Lugar dorme na terra firme onde atracamos. Há calma no ar. Nessa hora, Dadá pode ficar tranquilo para conversar. Em 2007 ele foi sequestrado e espancado. Desde então faz parte do programa de proteção à testemunha e anda com seguranças. Mas, depois que surgiu o Movimento, a confiança na capacidade de luta aumentou. “O movimento está forte. Nossa luta é justa”, afirma.

Antes do episódio do fogo, escorriam semanalmente pelo Arapiuns cerca de 40 balsas carregadas de toras. Cada uma com uma média de dois mil metros cúbicos de madeira. Agora, diz Dadá, se passarem três balsas por mês é muito. Foi o fogo? “Questão de amedrontamento”, analisa o jovem cacique. O fogo transferiu, ao menos em parte, o medo para o “outro lado”. “A gente está falando no canal de rádio que não tem hora nem momento para ter outra manifestação, para pegar outra balsa. Então eles reduziram a quantidade”, explica. O foco da pressão é a empacada regularização fundiária da Gleba, estacionada em gabinetes e negociada entre audiências públicas e lobbies políticos.

Nova Olinda se divide em duas posições antagônicas. Para entrar na Gleba, é preciso estar de um lado. “A gente vai ter que discutir com a comunidade.” Minha recepção na aldeia Novo Lugar é permeada de desconfiança. Poucas semanas antes, eles haviam recebido uma jornalista que se mostrou envolvida com o tal “outro lado”. Para ter acesso, era preciso explicar que minha presença não implicava em vínculos diretos com o “lado de lá”, os empresários madeireiros, identificados pelo apoio que recebem de comunidades como Fé em Deus, Repartimento e Vista Alegre. Em todas as outras comunidades, o procedimento de abordagem foi o mesmo. Como iniciei a viagem pelo lado da resistência aos empresários, que se encontrava antes pela logística do rio, as comunidades opostas fecharam as portas.

Um daqueles paraísos perdidos na Amazônia, lugar de floresta altamente preservada, onde um sonho de éden ainda parece persistir, a região de Nova Olinda é banhada por rios de águas escuras, que escorrem de forma sinuosa, de difícil acesso, praticamente isolando a área na seca do acesso de barcos maiores – com o rio cheio, leva-se pelo menos um dia para se chegar de barco até Santarém, percurso feito em semanas nas canoas tradicionais.

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