BOLETIM – Por um Brasil Ecológico, Livre de Transgênicos e Agrotóxicos | nº 522

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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,

LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS

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Número 522 – 14 de janeiro de 2011

Car@s Amig@s,

Mais prudente que o Brasil, Malásia suspende liberação de mosquitos transgênicos

O governo da Malásia decidiu, na última semana, adiar o primeiro teste a campo com mosquitos Aedes Aegypti transgênicos. Os 4.000 a 6.000 mosquitos do sexo masculino foram originalmente programados para ser soltos no mês passado para testar uma nova estratégia de combate à dengue. Entretanto, uma forte movimentação de ambientalistas foi capaz de suspender o plano.

Em um documento encaminhado ao governo da Malásia em 21 de dezembro de 2010, as dezenas de organizações signatárias pediram que nenhuma liberação de mosquitos transgênicos ocorra sem que haja transparência na avaliação dos impactos destes testes para o meio ambiente e para as pessoas. Pediram ainda especial atenção ao Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança, do qual o país é parte (assim como o Brasil), e à lei de Biossegurança da Malásia, de 2007: ambos asseguram participação efetiva da população em questões desta ordem.

Estes mosquitos transgênicos são exatamente os mesmos cuja liberação experimental no meio ambiente foi autorizada pela CTNBio em sua última reunião de 2010 (ver Boletim 520). Conforme relatamos, serão liberados em Juazeiro – BA milhares de machos transgênicos que na teoria irão cruzar com fêmeas que carregam o vírus da dengue e gerar descendentes estéreis, que morrerão antes de chegar à fase adulta. É um tipo de mosquito terminator, e seus proponentes alegam que com sua continuada introdução no meio ambiente será possível reduzir a população dos mosquitos e com isso baixar a incidência da doença.

Testes deste tipo estão em andamento somente nas Ilhas Caiman e têm sido alvo de duras críticas por terem sido iniciados sem a realização de consultas públicas e por não se ter buscado o consentimento informado da população local.

No documento apresentado ao governo da Malásia, as organizações da sociedade civil ressaltam que os mosquitos transgênicos podem sofrer mutações (frequentemente não notadas rapidamente) e que efeitos não previstos podem ocorrer, mas que o foco destes testes a campo está em avaliar a adaptação dos mosquitos no meio ambiente e não na ocorrência de efeitos indesejáveis — cuja observação deveria ser o primeiro passo.

Conforme dissemos no Boletim 520, existem estudos apontando que, pelo fato de o processo da transgenia ser pouco preciso, há entre 3 e 4% de chances de as larvas sobreviverem e chegarem à fase adulta carregando o transgene. E muito pouco se sabe sobre os potenciais efeitos deste “escape”.

As organizações da Malásia argumentam também que aspectos como as interações entre as duas espécies de mosquito transmissoras da dengue (o Aedes aegypti e o Aedes albopictus) e sobre seus predadores e presas deveriam ser melhor conhecidos antes que organismos deste tipo fossem introduzidos no meio ambiente. Em verdade, não existe virtualmente nenhuma experiência de avaliação de riscos desta nova tecnologia no plano internacional.

É preciso notar ainda algumas armadilhas desta nova estratégia para o controle da dengue: caso chegue ao estágio comercial, ela demandará a contínua liberação de milhões de mosquitos transgênicos em muitos lugares de modo a efetivamente reduzir a população dos mosquitos alvo. Nesta escala de intervenção, não só as preocupações já levantadas sobre os testes a campo são fortemente ampliadas, como podem surgir novos riscos. Por exemplo, há o temor de que a supressão da população do Aedes aegypti possa favorecer o aumento da população de outros mosquitos transmissores de doenças sérias — como o Aedes albopictus, também transmissor da dengue.

Na verdade, já antecipando estes problemas, a inglesa Oxitec, a mesma empresa que desenvolveu (e quer comercializar) o Aedes aegypti transgênico, já está também desenvolvendo o Aedes albopictus geneticamente modificado da mesma maneira. Ninguém diz, entretanto, quem assumirá a responsabilidade caso os transmosquitos provoquem danos ao meio ambiente ou à saúde de pessoas ou animais.

Com informações de:

- Statement of concern from civil society organizations regarding field release of genetically modified mosquitoes, 21/12/2010.

- Malaysia delays landmark GM mosquito trial after protests – The Independent, 04/01/2011.

- Science snipes at Oxitec transgenicmosquito trial. In Nature Biotechnology, volume 29, número 1, janeiro de 2011.

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Neste número:

1. Não transgênico é mercado estratégico e rentável

2. Uso de herbicida prejudica videiras no norte do RS

3. Feijão transgênico na CTNBio

4. Embrapa desenvolve variedade de soja convencional superprecoce

5. Escândalo de rações contaminadas atinge outros países europeus

6. Diretrizes de Kuala Lumpur para política econômica na agricultura

A alternativa agroecológica

No inverno a gente planta, no verão a gente cria

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1. Não transgênico é mercado estratégico e rentável

Maiores compradores são Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Coreia do Sul e Japão

Enquanto as exportações de soja em grãos registraram queda de 3,3% nos valores cobrados em 2010 ante 2009, as exportações do farelo tiveram alta de 2,8% nos preços. Além do óbvio valor agregado do farelo, a diferença também pode ser explicada pelos prêmios pagos pelo insumo não transgênico, que têm a preferência de alguns países europeus nas compras brasileiras. Os produtores nacionais já entenderam a importância do nicho e estão cada vez dividindo o cultivo entre sementes geneticamente modificadas e as não transgênicas.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Produtores de Grãos Não Geneticamente Modificados (Abrange), relativos à safra 2009/2010, o Brasil exportou 8,6 milhões de toneladas de farelo de soja não transgênico e 3,9 milhões de toneladas de farelo transgênico.

“Nossos maiores compradores de não transgênicos são Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Coreia do Sul e Japão”, diz o diretor-executivo da Abrange, Ricardo Sousa.

Segundo Sousa, em torno de 35% do total de soja plantada no Brasil hoje é de não transgênica.

No caso do milho, essa proporção vai a 40%. Países como Estados Unidos e Argentina também produzem não transgênicos,mas em menor proporção. “O importante nesse segmento é que haja segurança em relação à segregação da produção, tem que haver uma logística bem coordenada para que efetivamente seja uma produção livre de GRÃOS geneticamente modificados”, explica.

A opção segue a lógica do mercado. “Se o consumidor tem suas ideologias ou crenças, temos a preocupação em atender essas demandas”, diz Sousa, ao observar que na Europa, muito mais do que no Brasil, há uma parcela da população com preocupações profundas em relação aos transgênicos.

Preço do farelo de soja teve alta de 2,8%. Parte do aumento é creditada aos prêmios pagos pelo insumo sem modificação genética.

Fonte: Brasil Econômico, 13/01/2010 – em Pratos Limpos.

2. Uso de herbicida prejudica videiras no norte do RS

O uso indiscriminado de herbicidas virou o principal inimigo dos parreirais na região norte do Rio Grande do Sul. Produto altamente volátil, os agroquímicos têm atingido videiras de propriedades rurais a até um quilômetro de distância, causando prejuízo por safras seguidas e deixando produtores em estado de alerta.

A uma semana da colheita de uva, Raimundo Cerioli, de Barão de Cotegipe, perdeu toda a produção. A suspeita de que os parreirais tenham sido atingidos por um herbicida usado em propriedades vizinhas virou foco de investigação do Ministério Público de Erechim.

Cerioli mantinha cerca de mil pés de videira, mas as folhas secaram e as uvas ficaram murchas. O prejuízo pode ultrapassar os R$ 20 mil que Cerioli ganharia vendendo 10 toneladas de uva.

Fonte: Zero Hora, 05/01/2011.

3. Feijão transgênico na CTNBio

Pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e da Embrapa Arroz e Feijão, entregaram à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) pedido de liberação para cultivo comercial de variedades de feijão transgênicas resistente ao vírus do mosaico dourado, o pior inimigo dessa cultura agrícola na América do Sul. A doença está presente em todas as regiões do país.

Fonte: Valor Econômico, 16/12/2010 – em Pratos Limpos.

4. Embrapa desenvolve variedade de soja convencional superprecoce

A Embrapa Cerrados e a Embrapa Soja desenvolveram uma variedade de soja adaptada ao cerrado cujo ciclo será 30% menor que o das variedades atuais, ou seja, de 90 a 100 dias. A pesquisa está em fase final de seleção das variedades e as sementes devem estar disponíveis para o mercado em dois anos.

“A grande vantagem é possibilitar ao produtor ter no mesmo ano agrícola duas culturas no campo. Isso é muito importante para o sistema produtivo”, destaca o pesquisador que coordena a pesquisa de soja na Unidade, Sebastião Pedro da Silva Neto.

O pesquisador destaca ainda que o encurtamento do ciclo permite também que se minimize a ocorrência de insetos e fungos, já que a planta fica menos exposta, e que o produtor irá colher numa época diferenciada, o que permitirá conseguir melhores preços.

Extraído de: Embrapa, 07/01/11.

5. Escândalo de rações contaminadas atinge outros países europeus

O escândalo das rações animais envenenadas com a substância cancerígena dioxina ultrapassa as fronteiras da Alemanha. A Comissão Europeia comunicou em 06/01 a possibilidade de que derivados contaminados tenham sido exportados da Alemanha para o Reino Unido.

Segundo o órgão europeu, 86 mil ovos presumivelmente contendo dioxina teriam sido vendidos à Holanda, lá misturados com outros ovos e processados industrialmente. Os produtos resultantes — ainda não se sabe se maionese, biscoitos, xampu ou outros — teriam sido exportados para o Reino Unido em 12 de dezembro de 2010. As autoridades britânicas empenham-se para localizar os artigos em questão e interditar sua venda. (…)

Escândalo depois do escândalo

Karin Binder, encarregada de defesa do consumidor do partido A Esquerda, lamentou o fato de que o consumidor alemão continue sem informações suficientes sobre os alimentos contaminados pela dioxina.

“É o escândalo após o escândalo. Ilse Aigner [ministra da Alimentação, Agricultura e Defesa do Consumidor] tem que forçar a divulgação dos nomes de todos os produtos e fabricantes.”

No site do partido, Binder exige que a proteção ao consumidor seja priorizada. “A legislação para gêneros alimentícios e rações é feita sob medida para os produtores. Enquanto se espera que as firmas se autosupervisionem, faltam milhares de fiscais nas repartições. Só assim se pode explicar que, há anos, graxas industriais tóxicas venham sendo misturadas às rações. E o consumidor é sempre quem paga a conta.”

O custo da costeleta

Binder aponta a criação industrial de animais como causa do escândalo da dioxina. “Por isso, alimentos produzidos na região e produtos orgânicos são a melhor defesa contra o veneno na comida. Qualidade e proteção aos animais ficam, forçosamente, de lado, quando galinhas e porcos se transformam em artigo de massa lucrativo nas fábricas de animais.”

Segundo ela, agora fica explicitado quanto os “ovos e costeletas supostamente baratos” custam: “prejuízos milionários para os agricultores, custos de fiscalização cada vez mais elevados, assim como danos à saúde e ao meio ambiente”.

A Federação dos Agricultores Alemães (DBV) exige indenização por parte dos produtores de rações. “Quem causa os danos, deve pagá-los”, declarou uma porta-voz da associação. Calcula-se entre 10 mil e 20 mil euros o prejuízo semanal para cada propriedade rural afetada: somente na Baixa Saxônia, mais de mil delas estão fechadas.

Fonte: Deutsche Welle, 06/01/2010.

6. Diretrizes de Kuala Lumpur para uma abordagem a partir dos direitos humanos à política econômica na agricultura

Um grupo de organizações de direitos humanos de todas as regiões do mundo se reuniram para deliberar As orientações Kuala Lumpur para uma Abordagem dos Direitos Humanos à política Econômica na Agricultura. As orientações são uma ferramenta prática para assegurar a primazia e a centralidade dos direitos humanos nas políticas econômicas relacionadas com a agricultura.

A Terra de Direitos participou deste debate e divulga agora o sumário do documento.

Mais informações no site: http://www.escr-net.org

A alternativa agroecológica

No inverno a gente planta, no verão a gente cria

Luiz Souza e Eliete vivem no município de Solânea, microrregião do Curimataú Paraibano (Mesorregião do Agreste Paraibano). Nesta região do semiárido brasileiro, no bioma da Caatinga, a família vive há 30 anos em um constante processo de adaptação técnica e de superação das limitações impostas pelo clima e pela rígida distribuição das chuvas durante o ano.

Desde a aquisição da propriedade de 12 ha, na década de 1970, a vida foi difícil. A terra adquirida já vinha sendo degradada pela intensiva exploração agrícola e pecuária. Mesmo adquirindo mais área, viram-se obrigados a utilizar pastos nativos para aumentar o oferecimento de forragem para o gado e queimar florestas para plantar roça.

Dentre os principais problemas estava o de romper com o ciclo vicioso de superutilização dos recursos no inverno e baixa produção/manutenção da biomassa no verão, que vinha resultando na superexploração dos recursos e degradação do solo.

Muitas coisas começaram a mudar a partir do momento em que o casal começou a participar das atividades do Sindicato Rural de Solânea, realizadas em parceria com a AS-PTA. Após diagnósticos, oficinas e seminários, o casal pôde conhecer experiências de outros agricultores e, a partir delas, refletir e adaptar soluções para os seus problemas específicos: especialmente, conhecer os princípios da Agroecologia para romper com a lógica de superexploração e degradação dos recursos da propriedade e promover uma integração mais harmônica e sustentável entre a produção vegetal e animal.

As principais ações realizadas foram no sentido de aumentar a diversidade de criação animal e de produção vegetal na propriedade e de aumentar a integração entre o uso dos espaços e recursos oriundos da produção, levando-se em conta cada época do ano.

Para isso, o casal passou, com o tempo, a aumentar a produção e os tipos de fonte de forragem no inverno (chuvas), aliado ao uso de técnicas de conservação da água na propriedade (barragens subterrâneas) e de armazenamento da forragem produzida (fenação de plantas nativas e ensilagem em silos-trincheira). A divisão de pastos em piquetes também passou a ser utilizada e, para cada animal, existe uma fonte de forragem: para os cavalos, a ensilagem de palhada de milho; para os porcos, os restos da roça de milho, maxixe, jerimum, abóbora e palma; as galinhas, ficam soltas no terreiro.

Em comparação com uma outra família, cuja propriedade é voltada à caprinocultura especializada, os resultados mostram que Luiz Souza e Eliete possuem, além da maior renda bruta e uma renda líquida muito maior, uma maior autonomia na aquisição da alimentação. Para ilustrar isso, dados da família mostram que, considerando-se apenas o que foi vendido, o casal conseguiu em 2008 uma renda monetária bruta de R$ 12.100,00 e com custos produtivos de R$ 774,00: a rentabilidade do sistema foi de 14,6. Ou seja: para cada real investido na compra de insumos, a família recuperou R$ 14,60. Por outro lado, considerando-se a produção de alimentos, que foi equivalente a R$ 5.166,00, a renda total gerada no sistema (monetária e não monetária) passa a ser de R$ 17.266,00, resultando em uma rentabilidade de 21,7.

De uma forma resumida, a estratégia de manejo da agrobiodiversidade do casal consegue promover uma maior renda, com maior rentabilidade, menos custo e menor dependência de insumos e mercados externos.

Outras experiências como estas vêm sendo conduzidas pelos sindicatos de trabalhadores rurais da região, identificando as principais vulnerabilidades dos sistemas pecuários e orientando a dinâmica de inovação conduzida por uma rede de agricultores-experimentadores, que é atualmente articulada pela Comissão Regional de Criação Animal do Pólo Sindical da Borborema, um fórum que congrega sindicatos de trabalhadores rurais, associações e pastorais de 15 municípios do Agreste da Paraíba.

Fonte: Agroecologia em Rede.

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Campanha Brasil Ecológico, Livre de Transgênicos e Agrotóxicos

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e é de livre reprodução e circulação, desde que citada a AS-PTA como fonte.

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