Na próxima terça-feira (25), acontecerá uma audiência pública para debater a retirada de madeira do Assentamento Esperança (Anapu/PA), local de conflitos com madeireiros e onde foi morta a missionária Irmã Dorothy. A audiência será presidida pelo próprio ouvidor agrário nacional, desembargador Gercino José da Silva Filho. O clima no local é de muita tensão, como narra a reportagem divulgada pelo Diário do Pará.
Tensão e protestos dominam Anapu
Texto publicado originalmente no jornal Diário do Pará. Acesse pelo link: http://diariodopara.diarioonline.com.br/N-125600-TENSAO+E+PROTESTOS+DOMINAM+ANAPU.html
Toras de madeira bruta e madeiras serradas. Esse foi o saldo dos primeiros dias de operação da Polícia Federal no PDS Esperança em Anapu. A madeira ilegal estava na floresta pronta para ser transportada e acende ainda mais a fogueira da disputa pelo uso da terra do Programa de Desenvolvimento Sustentável. De um lado, defensores do modelo defendido pela missionária Dorothy Stang, que prevê a permanência da floresta em pé. Outro grupo, ligado a madeireiros, quer que seja liberada a exploração de madeira no PDS, o que não é permitido pela legislação atual.
Ontem (20), pessoas ligadas ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu, bloquearam um trecho da Transamazônica que dá acesso ao município de Anapu. Os manifestantes são contrários aos defensores do modelo do PDS e exigiam uma audiência pública com o ouvidor agrário nacional Gersino da Silva Filho. A reivindicação foi atendida e a audiência está marcada para a próxima terça-feira, às 11h, em Anapu. A princípio a audiência seria em Altamira, onde as pressões internas seriam menores.
A tensão entre os dois grupos foi acirrada nos últimos seis meses, mas já se arrasta há mais tempo. “Desde o ano passado há uma guerra entre a prefeitura de Anapu e os defensores do PDS”, diz o procurador da República Felício Pontes Júnior. O atual prefeito do município, Francisco de Assis Souza, o Chiquinho do PT, foi uma espécie de afilhado de Dorothy Stang, sendo, inclusive presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, mas elegeu-se tendo como vice o fazendeiro Laudelino Fernandes, o Délio, que chegou a ser investigado como integrante de um possível consórcio que teria patrocinado o assassinato da missionária.
DISCÓRDIA
A aliança entre os dois contraria os colonos que vivem no PDS. O atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Luís Sena, é amigo pessoal de Chiquinho do PT. “Os dois fizeram uma parceria com os madeireiros”, acusa o procurador.
Ao fazer os assentamentos no PDS, o Incra cadastrou 180 famílias, mas aos poucos, pessoas que não faziam parte do perfil da clientela de reforma agrária também conseguiram lotes de terra na área. “Os madeireiros colocaram funcionários lá, com o intuito de negociar madeira. Fizemos um segundo levantamento ocupacional em julho do ano passado e percebemos que havia 30 famílias a mais. Foi essa turma que se juntou ao Luís Sena e começou a fazer a pressão para a venda de madeira”, diz.
NOVO SINDICATO
A madeira retirada de forma ilegal começou a ser negociada no PDS. Para evitar esse tipo de comercio na floresta, colonos ligados a ideia original do PDS fundaram um novo sindicato, o da Agricultura Familiar, que originou também uma cooperativa. Para evitar a extração de madeira, o novo sindicato sugeriu a instalação de guaritas nas entradas do PDS. “Concordamos com a colocação das guaritas porque entendemos ser uma maneira mais permanente de impedir a invasão pelos madeireiros. E também vamos trabalhar para punir quem vende madeira para esses criminosos”, disse então o procurador da República em Altamira, Bruno Gutschow.
Os agricultores que não estão regularizados no assentamento e que defendem a exploração madeireira reagiram, com apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e da própria prefeitura. “Foram os próprios colonos do PDS que começaram a vender madeira e agora estão reclamando”, diz o secretário de Planejamento de Anapu, Adezuito Teixeira Braga.
Falando em nome do prefeito, o secretário criticou a ação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. “O Incra tem deixado a desejar. Só está atendendo a meia dúzia de pessoas ligadas ao padre Amaro e está esquecendo o povão”, afirmou. “O Incra está agindo de acordo com a lei”, rebateu o Incra, por intermédio da assessoria. (Diário do Pará)
