Gazeta do Povo: Famílias são tiradas de área em Piraquara

Jornal Gazeta do Povo – 03/12/10

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HABITAÇÃO -Famílias são tiradas de área em Piraquara

Ação contou com mil policiais. Cerca de 350 famílias estavam no terreno desde outubro; 70 não têm aonde ir

Publicado em 03/12/2010 | ISADORA RUPP

A desocupação de uma área de proteção ambiental na manhã de ontem, onde moravam cerca de 350 famílias, reuniu muita força policial e pouca assistência social para os habitantes da área. A ação aconteceu no bairro Guarituba, em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba (RMC). Cerca de mil policiais militares cumpriram um mandado de reintegração de posse expedido pela juíza Diocélia da Graça Mesquita Fávaro, de Piraquara, que autorizou o uso de “força policial” para retirar os moradores do local.

As famílias desaprovaram o grande número de policiais que cercaram a área. “Todo mundo aqui é trabalhador. Não precisava de tanta gente”, disse o morador Roberto Carvalho. A abordagem começou por volta das 9 horas. Parte das casas foi desmontada por agentes da prefeitura, mas os trabalhos tiveram de ser paralisados por causa da chuva e devem continuar hoje de manhã.

Os pertences das famílias foram levados para a Escola Municipal Henrique de Souza. No entanto, a presidente da Associação de Proteção em Desenvolvimento de Moradores (Apoden), Maria Joana Tarachinki, que atua no Guarituba e em outras regiões de Piraquara, afirmou que houve descaso por parte das autoridades. Segundo ela, muitos objetos foram danificados pela chuva.

Cerca de 70 famílias estão desabrigadas, segundo a Apoden. O secretário municipal do meio ambiente Gilmar Clavisso encaminhou as pessoas para uma quadra de esportes da escola, mas a prefeitura não tem uma solução permanente para o problema. “Entende mos a necessidade, mas, neste momento, não tenho uma resposta imediata”, afirma o prefeito Gabriel Jorge Samanha, que ressaltou que assistentes sociais atenderam as famílias na escola.

O advogado de defesa das famílias, Felipe Spack, enfatizou que o Estado terá de arcar com o abrigo. Grande parte dos moradores entrevistados vieram de outros bairros e cidades da RMC, fugindo do pagamento de aluguel. “Nem todas as pessoas ali são necessitadas. Temos clareza de que muitas estão se aproveitando”, afirma o prefeito. O coronel do 1.º Comando Regional de Polícia Militar, Marcos Sche remeta, que acompanhava a desocupação, salientou que o problema na área é social, e não policial. “Há um problema com a Justiça e a polícia está ajudando com o apoio. Não fico feliz em desmanchar a casa das pessoas”.

Durante a ação, mesmo sem confronto, duas pessoas foram presas. A região ocupada é responsável por 70% da água potável de Curitiba, conforme estudos. Além de ser uma área de mananciais, o terreno é propriedade particular. A representante dos proprietários foi procurada, mas não retornou os recados da reportagem.

Desolação

Entre as famílias que não sabem onde passarão os próximos dias está a da dona de casa Ivani Nunes. Ela, o marido e os quatro filhos moravam no local desde o início da ocupação, em outubro deste ano. “A gente sabe que estar aqui é errado. Penso nos meus filhos e na minha bebê. Queremos pagar, ter uma moradia. Mas as casas prometidas nunca saem”.

Ivani se refere às obras do Pro gra ma de Aceleração do Cresci mento (PAC), do governo federal, em outra parte do Guarituba, que está recebendo a construção de canais de drenagem e casas. O prefeito Samanha disse que as obras estão atrasadas “por vários motivos” e aguarda outros recursos para terminar as casas.

Para o assessor jurídico da ONG Terra de Direito, Thiago Hoshino, grande parte dos conflitos fundiários da RMC derivam “da ausência notória de políticas públicas de interesse social”. Segundo ele, o número de policiais presentes aponta uma inversão na lógica social. “A moradia das famílias de baixa renda não pode ser levada como caso de polícia”.

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