Acervo / Publicações



Guerreiras na fronteira


Prefácio

Foi só enquanto atravessava a ponte sobre o rio Paraná, que separa o Paraná do Mato Grosso do Sul e, portanto, as regiões Sul e Centro-Oeste do país, que pensei pela primeira vez sobre a escolha da localização geográfica de minha pauta. A fronteira. O que mais me intriga em relação a ela é que, no momento em que a gente a cruza, tem a sensação estranha de que mudou completamente de lugar. Não foi sem um certo espanto que processei a inédita conclusão – a de que minha própria história sempre se enveredou pelas extremidades dos territórios, pelos confins de um lugar que se agarram aos princípios de outro (ou vice-versa).

Nasci e fui criada pertinho do ponto onde Brasil, Paraguai e Argentina se alcançam, tomando muito tererê e, eventualmente,
comprando sem impostos do outro lado da ponte da Amizade. Por teimosia do destino, meu primeiro lar internacional foi Bratislava, capital da Eslováquia, que se conecta, através do majestoso Danúbio, à Hungria e à Áustria (é a única capital europeia situada na fronteira do seu país com outros dois).

Quando a América Latina me chamou, eu fui encontrá- -la em Cúcuta, onde as repúblicas irmãs Colômbia e Venezuela, tão parecidas e tão diferentes, se seguram as mãos, ainda que nem sempre de bom grado. Por fim, a ilha querida que eu chamo de casa há pouco mais de cinco anos, Floripa, que faz divisa com o infinito em todas as suas direções.

Então, veio o Trabalho de Conclusão de Curso. E mais uma fronteira, ainda mais desafiadora.

Mas por que o interesse pelas mulheres indígenas?

De acordo com estudos feitos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há cerca de 900 mil autodeclarados indígenas no Brasil, divididos em 305 etnias e falantes de, pelo menos, 274 idiomas. Destes, cerca de 445 mil são mulheres (49,5% do total).

Apesar das situações terríveis que enfrentam todos os dias, algumas das quais descritas neste livro, as mulheres guarani kaiowá não devem ser pensadas como vítimas. Como todos os povos indígenas, são vítimas, sim, do sistema e de um Estado anti-indígena, mas, acima de tudo, são protagonistas da própria história. Não à toa são controladoras e donas do fogo, o núcleo familiar e doméstico (conceito melhor apresentado no capítulo 4). Seu papel na configuração social e cultural tem sido alterado, mas quem manda, efetivamente, são e foram sempre elas.

Uma das coisas que aprendi, e que considero importante compartilhar e ressaltar antes da leitura deste livro, é que a violência de gênero existente, principalmente dentro das reservas (ambiente naturalmente mais tenso se comparado às terras demarcadas), não é gratuita. Ela é decorrente de um processo histórico secular de outras violências e violações de direitos aos quais os indígenas foram submetidos e consequência do contato com o branco e a cidade, da exploração da mão-de- -obra, da perda da terra. O processo de colonização inseriu os indígenas no sistema branco do patriarcado, onde as mulheres são naturalmente mais violentadas.

Este livro é composto por cinco capítulos que contam oito histórias. Muitas outras ficaram de fora, com um pouco de dor. São mulheres que lutam todos os dias – pela terra que é sua por direito, por comida, pela cultura, por respeito, para se fazer ouvir, se fazer entender, para viver. Para não morrer.

Não foi fácil. À medida que entendia no que estava me metendo, fui duvidando. Tive infinitas incertezas sobre se seria mesmo capaz de realizar este projeto, com todas as particularidades e complexidades do tema e a sensibilidade que o tratamento dele exige.

Por que o interesse pelas mulheres indígenas? Não sei responder por quê. Não sabia no primeiro dia de viagem, quando, de repente, me vi em pânico. Não sei ainda hoje. Ao fim de sete meses de intensa imersão e ânsia de aprender, o que sei é que não era a pauta que precisava ser feita; era eu quem precisava fazê-la.

Eliane Brum diz que o repórter precisa atravessar a rua de si mesmo para olhar a realidade do outro lado de sua visão de mundo. Cada uma das pessoas que encontrei, ouvi e observei durante o processo de produção deste livro me tomaram pela mão e me ajudaram a atravessar um pouco de mim. Me ensinaram, me indignaram com o mundo, me indignaram comigo mesma, me calaram. Me expuseram minha própria hipocrisia, meu conforto, minhas certezas, meus limites, como jornalista, mulher, branca, ser humano. Me derrubaram quando, em seus rostos, eu vi expressões e olhares tão familiares. Alimentaram uma vontade enorme de fazer o mundo ouvir suas vozes fortes.

Em Guaíra, fui colocada à prova do início ao fim, questionei minha capacidade de superar o próprio “olhar estrangeiro” e de me afirmar como jornalista diante da entrevistada mais difícil que já encontrei. Amambai foi gentil comigo, me mostrou nos fins de tarde porque recebe o título de cidade crepúsculo e me fez ser grata pelos anjos que os deuses da reportagem às vezes colocam em nosso caminho, pra facilitar o trabalho ou só mesmo pra que não nos sintamos tão sozinhos.

Não sei se fui suficientemente capaz. Muitas ruas ficaram por atravessar. Deve ser isso que nos faz seguir no Jornalismo, afinal de contas.

Entendi que, mesmo que nos esforcemos em parecer neutros e exercer a tal da distância imparcial, tudo que temos a oferecer num texto (ou vídeo, ou foto) somos nós mesmos. Dentre tantas outras coisas, é também disso que este livro se trata.

“Espero que seja suficiente”, já escreveu Eliane Brum.

FICHA TÉCNICA 

TítuloGuerreiras na fronteira: Histórias de mulheres Guarani e Kaiowá que resistem em terras indígenas entre o Brasil e o Paraguai 

Autora: Isadora Ruschel Castanhel

Florianópolis: UFSC, 2016. p. 111



Ações: Conflitos Fundiários,Defensores e Defensoras de Direitos Humanos
Eixos: Terra, território e justiça espacial,Política e cultura dos direitos humanos
Tags: Isadora Ruschel Castanhel