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Mulheres candidatas são quase 60% das vítimas de violência política no 1º turno


Elas representam 34,85% das candidaturas.  Entre os 102 casos de violência dirigidas a candidatos, 60 tiveram mulheres como alvos. Violência é marcada por misoginia, racismo e transfobia e é mais recorrente no ambiente virtual

Parlamentares se manifestam contra a violência política de gênero na Câmara dos Deputados. Foto: Pablo Valadares / Câmara dos Deputados

Mulheres foram vítimas em 58,8% dos casos de violência política dirigidos contra candidaturas durante os 50 dias de campanha do primeiro turno das eleições de 2026. Dos 102 episódios registrados contra pessoas candidatas, 60 tiveram mulheres cisgênero, trans e travestis como vítimas.  

Os dados fazem parte da 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, realizada pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global. Embora representem cerca de um terço das candidaturas (34,85%, segundo o TSE), as mulheres concentraram quase seis em cada dez casos de violência registrados no 1º turno contra quem disputava as eleições. 

Considerando o total de 134 episódios de violência política registrados no 1º turno, 52,2% (70) dos casos tiveram mulheres cis, trans e travestis como vítimas. O conjunto corresponde ao período de 16 de agosto a 4 de outubro e inclui candidaturas, pessoas que exerciam cargos eletivos ou funções públicas e outras pessoas atingidas.  Homens foram vítimas em 61. Os três episódios restantes tiveram como alvos sedes partidárias e uma equipe de campanha. 

Nas edições anteriores da pesquisa, a participação das mulheres entre as vítimas era menor: elas representavam 41,3% das vítimas no período pré-eleitoral de 2020 a 2022, 38% no período eleitoral de 2022 e 38,4% entre 2022 e 2024. 

Entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, foram registrados 354 episódios em 22 meses, uma média de um caso a cada 44 horas. Nos 50 dias de campanha do 1º turno de 2026, foram 134 episódios, elevando a frequência para um caso a cada nove horas. 

"As mulheres são os alvos preferências da violência que intimida e desqualifica.  E o aumento e acirramento da violência política de gênero é um reflexo também do baixíssimo índice de responsabilização. É urgente também que se exija repostas dos partidos políticos, pois as candidaturas de mulheres não podem representar apenas o cumprimento de cotas e o aumento de financiamento", destaca a coordenadora do Setor de Incidência da Terra de Direitos, Gisele Barbieri. 

A violência política contra mulheres também se diferencia pelos meios utilizados. Entre os 97 episódios de violência simbólica, que incluem ameaças e ofensas, 60 tiveram mulheres como vítimas (61,9%). Já entre os 32 episódios de violência física, que incluem agressões, atentados e assassinatos, as mulheres foram vítimas em 21,9% dos casos. 

Os dois assassinatos registrados no primeiro turno tiveram homens como vítimas. As 12 ocorrências envolvendo armas de fogo também tiveram vítimas exclusivamente masculinas. Já as sete ameaças de violência sexual identificadas pela pesquisa tiveram mulheres como vítimas. 

Entre os 70 episódios de violência política contra mulheres, 53 (75,7%) apresentaram algum marcador discriminatório. Foram identificados machismo ou misoginia em 45 casos, racismo em nove e transfobia em cinco. 

“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira. Quando essas formas de discriminação se cruzam, elas se reforçam e ampliam as barreiras à participação política, tornando ainda mais difícil o acesso e a permanência desses grupos nos espaços de poder”, destaca Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global. 

A dimensão racial também evidencia a desigualdade. Pessoas negras, pretas e pardas foram vítimas em 44,8% dos episódios de violência política no primeiro turno, 60 casos. Entre as 70 mulheres vítimas, 19 eram mulheres pretas. Dos 13 episódios em que o racismo apareceu explicitamente como marcador da violência, oito tiveram mulheres pretas como vítimas. 

Mulheres são maioria entre as vítimas de ataques repetidos 
A violência contra mulheres também se caracteriza pela recorrência. Durante os 50 dias de campanha, 11 pessoas foram vítimas de episódios repetidos; nove eram mulheres. 

A dimensão racial também evidencia a desigualdade. Pessoas negras, pretas e pardas representaram 44,8% das vítimas de violência política no 1º turno, com 60 casos. Entre as 70 mulheres vítimas, 19 eram mulheres pretas. Dos 13 episódios em que o racismo apareceu explicitamente como marcador da violência, oito tiveram mulheres pretas como vítimas. 

Erika Hilton (PSOL-SP), Thabatta Pimenta (PV-RN), Natália Bonavides (PT-RN) e Raquel Lyra (PSD-PE) foram alvo de três episódios cada uma durante a campanha. 

Na internet, mulheres são 81% das vítimas 
A violência contra mulheres também se concentra no ambiente virtual. Dos 42 casos registrados na internet, 34 tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a 81%. Homens foram vítimas em oito casos. 

Fora do ambiente virtual, foram registrados 92 episódios, dos quais 36 tiveram mulheres como vítimas (39,1%). 

No período pré-eleitoral, 42,4% dos episódios ocorreram no ambiente virtual. No primeiro turno, essa proporção caiu para 31,3%. As ruas passaram a concentrar a maior parte dos casos: 71 dos 134 episódios ocorreram nas ruas, durante atividades de campanha ou eventos públicos. 

“Os dados trazem importantes achados para identificar os ambientes em que agentes políticos estão mais vulneráveis e pensar medidas de proteção. Em épocas de eleição, é nas ruas que se registra a maior parte dos casos. Quando eleitas, essas pessoas passam a ser vítimas de violências principalmente nos seus locais de atuação, seja no parlamento ou no Executivo”, aponta Gisele Barbieri. 

Para Barbieri, a violência também revela os limites da participação política no ambiente digital. “Nas redes ou nas ruas, a violência está sendo utilizada para intimidar e impedir que determinadas candidaturas e propostas possam se expressar.” Segundo ela, os dados também reforçam a necessidade de responsabilização das plataformas pela circulação de conteúdos violentos. 

Quando o agressor é adversário político, mulheres são as principais vítimas 
A dimensão de gênero é ainda mais evidente nos casos em que a autoria foi atribuída a adversários políticos, como parlamentares, governantes ou outros candidatos. Dos 21 episódios com esse perfil, 20 tiveram candidatas ou parlamentares mulheres como vítimas. 

Casos envolvendo Macaé Evaristo (PT-MG), Brisa Bracchi (PT-RN), Andréia de Jesus (PT-MG) e Natália Bonavides (PT-RN) mostram diferentes formas de violência política contra mulheres durante a campanha. 

Macaé Evaristo reuniu comentários publicados em suas redes sociais que continham racismo, misoginia e intolerância religiosa. Entre as mensagens estavam referências à sua aparência e à sua condição de mulher negra, além de ameaças e ataques de cunho religioso. 

Brisa Bracchi recebeu um e-mail com exposição de CPFs e endereços seus e de familiares, referência à Ku Klux Klan e ameaça de estupro corretivo. O conteúdo foi enviado por uma pessoa que utilizava um codinome associado a um grupo neonazista. Brisa está entre as cinco mulheres negras que sofreram ataques repetidos durante a campanha. 

Já a candidata à deputada estadual por Minas Gerais e mulher negra, Andréia de Jesus, relata ter sofrido mais de 4 mil ameaças e ataques desde que ingressou na política. Natália Bonavides obteve medida protetiva depois de ser abordada na rua por um adversário que gravava um vídeo no qual afirmava que ela “não teria mais paz”. 

Autores e vítimas podem voltar a ocupar os mesmos espaços 
 Entre o período pré-eleitoral e o primeiro turno, a pesquisa identificou 192 mulheres cis e trans atingidas por violência política e 54 parlamentares, governantes ou candidatos apontados como autores desses episódios. Entre as 192 mulheres vítimas, 139 disputaram algum cargo em 2026 e 62 foram eleitas (45%). Dos 54 autores identificados, 36 disputaram as eleições de 2026 e 22 foram eleitos. 

Em sete casos, autor e vítima foram eleitos para a mesma casa legislativa. É o caso de Erika Hilton (PSOL) e Lucas Pavanato (PL), ambos eleitos para a Câmara dos Deputados.  

A Câmara dos Deputados que tomará posse em 2027 terá 11 autores identificados de episódios de violência contra mulheres e 26 mulheres que já foram vítimas de violência política, praticada por eles ou por outros agressores. 

Os dados mostram que a violência política de gênero não necessariamente termina com a eleição. Em alguns casos, autores e vítimas voltarão a ocupar os mesmos espaços institucionais, o que reforça a responsabilidade de partidos e casas legislativas na prevenção, responsabilização e enfrentamento desse tipo de violência. 

Sobre a pesquisa 
A 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, realizada por Terra de Direitos e Justiça Global, acompanha episódios de violência política no país e busca evidenciar como essas práticas afetam a participação política, a democracia e o exercício de direitos.   

Os dados do primeiro turno integram o levantamento de 2026. Os resultados consolidados, incluindo os episódios registrados durante o segundo turno, serão divulgados em novembro. 

Com dados mapeados desde 2016, a pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil já mapeou 2.071 episódios de violações contra agentes políticos e lideranças, considerando dados lançados nesta quarta-feira (07).  

Para a coleta de dados as organizações realizam o monitoramento e checagem diária da cobertura jornalística nacional e regional, além do cruzamento com registros oficiais e denúncias públicas.



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Eixos: Política e cultura dos direitos humanos