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Ofensiva global e guerras por lucro e poder exigem defesa urgente dos territórios pelos países


Em um mundo marcado pela escalada de conflitos e pela crise climática, movimentos sociais e povos de diferentes territórios apontam a solidariedade internacional como caminho de resistência

  Foto: Forough Taherkhani

Em um momento marcado pela intensificação dos conflitos armados, pelo agravamento da crise climática e pelo aprofundamento das desigualdades sociais, torna-se cada vez mais evidente que não estamos diante de crises isoladas. O massacre dos povos iraniano e palestino, impulsionado pela violenta disputa de poder protagonizada por Estados Unidos e Israel, respectivamente, é exemplo de ataques coordenados contra a vida, que chegam aos territórios como expressão mais cruel da lógica de imposição do poder econômico sobre todas as dimensões da existência. Meses e anos após o início desses conflitos, o rastro é de morte, destruição e apropriação da natureza, um resultado muito distinto das justificativas apresentadas para as intervenções. 

Esse mesmo cenário se manifesta no risco iminente de intervenção em Cuba pelos Estados Unidos, sob o argumento de ajuda internacional, encobre-se o interesse na violação da soberania nacional e na apropriação do território. 

O que se revela é uma mesma lógica de poder que organiza a economia global e as relações internacionais a partir da disputa por territórios, recursos naturais e controle geopolítico. Trata-se da atualização de uma lógica que transforma a terra em mercadoria e os povos em obstáculos a serem removidos. Nesse sentido, é fundamental manter viva a memória recente da resistência dos povos indígenas do Tapajós, no Oeste do Pará, contra a mercantilização do Rio Tapajós.  

Durante 31 dias, os povos ocuparam a entrada do porto da Cargill, em Santarém, pressionando o Governo Federal a revogar o Decreto nº 12.600/2025, que inclui os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização. O local, onde há um cemitério indígena — espaço sagrado para os povos originários — e onde foi instalado o terminal da transnacional, tornou-se território de resistência para as novas gerações. 

Os episódios recentes de violência no cenário internacional evidenciam o quanto a guerra segue sendo instrumento de reorganização de poder no sistema global. Por trás das narrativas de segurança, defesa ou estabilidade, assumidas por países que se autodeclaram garantidores da ordem global ou árbitros dos conflitos, persistem disputas por energia, minerais estratégicos, rotas comerciais, terra e água. Os territórios passam a ser tratados como ativos econômicos e estratégicos, e não como espaços de vida, cultura e reprodução social de povos e comunidades. 

Essa lógica não é nova. Ela se estrutura historicamente a partir de processos coloniais e imperiais que transformaram vastas regiões do planeta em fontes de extração de riqueza para poucos centros de poder. O colonialismo organizou a apropriação de terras, minerais, florestas e corpos, estruturando uma divisão internacional do trabalho que ainda hoje marca profundamente as relações globais, como a concentração fundiária e a desigualdade social, com impactos mais intensos sobre a população negra e periférica, mulheres, agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais. O que vemos no presente é a atualização desse padrão em escala mundial, com novos instrumentos financeiros, tecnológicos e militares, mas sustentado pela mesma base: a apropriação de territórios e de bens comuns. 

Ao mesmo tempo, essa lógica é uma das principais responsáveis pela crise climática. A expansão das fronteiras extrativas, a exploração intensiva de combustíveis fósseis, o desmatamento e a crescente financeirização da natureza integram um mesmo modelo econômico que transforma florestas, rios, minerais e biodiversidade em ativos negociáveis. A natureza deixa de ser reconhecida como condição de vida e passa a ser tratada como estoque de recursos a serem explorados, especialmente por grandes corporações transnacionais. 

Por isso, a crise que vivemos não é apenas ambiental, é também social, política e civilizatória. A degradação ambiental caminha lado a lado com a concentração de riqueza, a expulsão de comunidades tradicionais de seus territórios, o aumento da violência e a erosão de direitos. O mesmo modelo que intensifica a destruição da natureza aprofunda desigualdades e alimenta conflitos. 

Resistência global 
É nesse contexto que ganha relevância a construção de articulações internacionais entre povos e movimentos sociais. Em diferentes partes do mundo, comunidades e organizações têm buscado fortalecer redes de solidariedade e ação coletiva capazes de enfrentar essa lógica global de exploração. Uma dessas iniciativas foi o processo da Cúpula dos Povos, articulado rumo à COP30, realizada no Brasil em novembro do último ano, colocando os povos no centro do debate. 

A Cúpula reuniu movimentos populares, povos indígenas, comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil e diversos atores de todas as regiões do mundo comprometidos com a defesa dos territórios, da democracia e da justiça climática. Mais do que um evento, tratou-se de um processo político que afirmou que as respostas à crise climática não podem ser definidas apenas em negociações entre governos e interesses econômicos globais. Elas precisam partir das experiências e das lutas de quem vive, protege e resiste em seus territórios. 

Embora o ciclo organizativo da Cúpula tenha se encerrado, o processo político que ela representa está longe de terminar. Ao contrário, aponta para uma necessidade cada vez mais urgente: fortalecer alianças internacionais entre os povos diante de um sistema que opera globalmente para explorar territórios, concentrar poder e ampliar desigualdades. 

Se o neocolonialismo se atualiza para ampliar o controle sobre recursos e regiões estratégicas do planeta, as resistências também precisam se articular para além das fronteiras nacionais. Povos indígenas, quilombolas, camponeses, povos e comunidades tradicionais, trabalhadores urbanos e organizações de direitos humanos compartilham desafios comuns diante da expansão de projetos extrativos, da financeirização da natureza e da captura de decisões políticas por grandes interesses econômicos. 

A defesa dos territórios, portanto, não é apenas uma pauta local. Ela se conecta diretamente a debates globais sobre clima, democracia, soberania alimentar e direitos humanos. Em diferentes partes do mundo, comunidades que lutam contra o desmatamento, contra grandes projetos de mineração ou contra a exploração predatória de combustíveis fósseis estão, na prática, defendendo condições de vida para toda a humanidade. 

Há ainda que se considerar que, ao tratar das guerras de caráter imperialista, é fundamental afirmar que as relações internacionais não podem seguir sendo conduzidas pela força e pela imposição de interesses das grandes potências. O multilateralismo precisa estar ancorado em regras claras, no respeito ao direito internacional e na autodeterminação dos povos. Em vez da guerra como instrumento de poder, é esse marco que deve orientar a resolução de conflitos e a construção de uma ordem global mais justa. 

Diante de um sistema que organiza o mundo a partir da disputa entre potências e da mercantilização da natureza, a união entre povos torna-se não apenas um ideal ético, mas uma necessidade política. Fortalecer a solidariedade internacional, articular resistências e afirmar o direito dos povos aos seus territórios são passos fundamentais para enfrentar uma crise que é, ao mesmo tempo, climática, social e civilizatória. 

Se a busca desenfreada por lucro e pela concentração de riqueza e poder globaliza a exploração, alimenta guerras e transforma territórios em mercadorias, os povos precisam globalizar a solidariedade e a resistência. É dessa articulação entre territórios, movimentos e culturas que pode emergir uma resposta capaz de enfrentar as guerras do presente e abrir caminhos para outros futuros possíveis. 

*Bruna Balbi é coordenadora do Programa Amazônia da organização Terra de Direitos
** Lizely Borges é jornalista da organização Terra de Direitos

 

 



Ações: Conflitos Fundiários
Eixos: Política e cultura dos direitos humanos
Tags: guerra,Estados Unidos,Israel