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Especial Sou Mulher e Luto Por | Vercilene Francisco Dias


A advogada popular Vercilene Francisco Dias carrega consigo uma responsabilidade bem pesada: é a primeira mulher quilombola a se tornar mestre em Direito no Brasil. Ela apresentou sua dissertação de mestrado no dia 21 de fevereiro, e espera que em breve outras pessoas consigam esse título. “Eu espero que outras mulheres quilombolas cheguem lá. Vou abrir caminho, as outras que me sigam”, ri. 
Quilombola do Quilombo Kalunga, em Goiás, Vercilene conta que em sua comunidade as mulheres costumam ter dificuldade para acessar a escola e desempenham atividades de trabalho braçal, como na agricultura. 

Os familiares e amigos incentivaram Vercilene a ser professora.  Ela viu a dificuldade que esses profissionais enfrentavam, mas o que pesou mesmo em sua decisão, foi o fato de a comunidade não ter uma escola. Ela não poderia trabalhar lá, mas uma coisa ela sabia: queria ajudar as famílias do quilombo. “Eu queria ajudar a comunidade a conquistar esse espaço que tanta gente reivindica”, conta.

Foi assim que decidiu cursar Direito. Após terminar a faculdade, quis continuar seus estudos: ingressou no mestrado, onde apresentou a dissertação ‘Terra versus Território: Uma Análise Jurídica dos Conflitos Agrários Internos na Comunidade Quilombola Kalunga de Goiás’.
Estar inserida no Direito já não é uma batalha fácil para uma mulher negra: ela está em m ambiente com presença predominante de homens brancos. Segundo dados do Centro de Estudos de Sociedades de Advogados de 2017, apenas 1% dos cargos em escritórios de advocacia são ocupador por pessoas negras.

Primeira mulher quilombola a passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em 2016, Vercilene encontrou dificuldade em conseguir um trabalho, antes de ingressar no mestrado. Inspirada na luta de suas ancestrais e das mulheres que iniciaram a luta pela titulação do Quilombo Kalunga, ela continua sua resistência.  “Dentro do espaço da minha comunidade eu luto pelo direito das mulheres, que é também o direito de todas as pessoas: de existir, de estar, de permanecer”.

Ela lembra que são as mulheres que estão na frente de lutas e na preservação da cultura. “Apesar de serem elas a lutarem, elas estão sempre invisíveis: ocupam poucos espaços nas associações e nas relações de poder”, avalia. Mas, a primeira quilombola mestra em Direito no Brasil, segue lutando pra mudar esse cenário.

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Ações: Defensores e Defensoras de Direitos Humanos