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“O calo na pele que foi tantas vezes esfolada serve para alguma coisa. Ele também protege”, aponta quilombola


Reunidas em Castro (PR), mulheres quilombolas relatam como o desempenho de múltiplos papéis e as opressões sociais as tornaram fortes e sábias.

   Dona Marilene aprendeu o ofício de

Foi a mãe de Dona Marilene que falou à parteira da Comunidade Quilombola Serra do Apon, localizada próxima de Castro (PR), que ensinasse à menina o ofício de “pegar menino”. “Ensina alguma coisa para a Marilene”, disse a mãe. Ainda criança, Marilene acompanhava a já senhora parteira nas idas às casas das mulheres que carregavam bebês nos ventres. Escutava sobre uso de chás, remédios caseiros, posições mais confortáveis, rezas e preces cantaroladas. “Na minha comunidade todo mundo procurava ela, ela pegou menino até os 95 anos”, relata a Dona Marilene a uma roda de mulheres atenta a fala baixinha da senhora de 100 anos, completos dois dias antes do I Encontro de Mulheres Quilombolas, realizado no mesmo município, no dia 21 de julho.

Marilene da Silva Maciel amparou mulheres da comunidade e foi, sozinha, a responsável pelo parto dos seus nove filhos. Avó de 51 netos, ela alimenta a esperança de que alguma neta assuma a tarefa que lhe marcou tão profundamente – com alegrias e dissabores. “Desconfio que tem uma [neta] que quer aprender”, diz. Em paralelo à memória ativa sobre cada criança, mãe e família que acompanhou, ela carrega a tristeza de ser ignorada pelos adultos a quem ajudou a trazer para este mundo. “Ela passa por mim e me dá toco”, lamenta Dona Marilene em referência à uma mulher que não a cumprimenta na Comunidade. Relata também mágoa por ser chamada, em outras ocasiões, como “nega metida”, “baguá”. Os conhecimentos ancestrais que durante muito tempo foram objeto de interesse e cuidado foram invertidos, aos olhos enviesados: de riqueza se tornaram ofensa dirigida à anciã.

“Percebi neste encontro que há uma memória de dor, de abafamento dos saberes ancestrais, de perseguição e isso gera uma esfera de muito medo. Antes de chegar no resgate de manutenção e valorização das parteiras, a gente precisa fazer uma limpeza nesta referência que traz medo e desvalorização”, relata a parteira aprendiz da tradição, Raquel Messias de Camargo.

Parteira aprendiz de tradição, Raquel destaca a importância de valorização dos saberes ancestrais. Foto: Thaís EigenmannO percurso para valorização do ofício de parteira caminha lado a lado com o resgate da história das comunidades quilombolas. Guardiã de memórias, a parteira sabe, em profundidade, dos vínculos, da composição das famílias, da relação dos sujeitos com o território. Isto porque a relação entre as mulheres não ocorre apenas no parto – a parteira conhece as mulheres da comunidade, frequenta suas casas, media conflitos e estreita esta relação no momento da gestação e no pós parto.

De acordo com Raquel, integrante da Escola de Saberes, Cultura e Tradição Ancestral (ESCTA) o ofício surgido desde que a primeira mulher pariu, dialoga nestes tempos mais modernos, com os saberes da medicina ocidental. “Temos o acompanhamento do pré-natal na tradição, mas não se dispensa no posto de saúde, os exames. A gente hoje não precisa ser uma coisa ou outra, pode somar, mas quais valores a gente entende pro momento do nascimento, que é único?”, pontua. É assentado sobre o respeito do corpo da mulher, das suas vontades e do tempo do nascimento, assim como do cuidado coletivo com o resguardo da mulher, que a parteira atua. De um conhecimento que teve acesso pelo relatos orais das mães, avós, antepassadas.

Dona Vani, a guardião das sementes. Foto: Lizely BorgesSaber sobre a terra
Com o pai que desde cedo a Vani Rodrigues da Silva, a Dona Vani, aprendeu sobre o valor das sementes. Conterrânea de Dona Marilene, a senhora de 74 anos “não gosta do serviço de casa”. Ela diz preferir a lida com a terra.

Nomeada de guardiã das sementes ela credita o termo ao fato de ser “a mais velha”. “O povo quer saber as coisas comigo, daí eu conto. Eu sei das coisa porque me criei lidando com a semente desde criança, conheço o nome das sementes. Tem semente nova que não conheço, mas as antigas eu conheço tudo”, diz.

É na sequência da conversa que a gente entendo o porquê do título ser concedido a Dona Vani. “O que a gente planta pode comer sossegado”, diz sobre a mandioca, a batata doce, o milho, o feijão, a verdura e outros tantos alimentos presentes na hora vizinha à sua casa. “Eu vou lá no mato, junto as coisas de árvore e levo tudo os ciscos pra horta”. O cisco (gravetos, grama, etc), as folhas secas e as sementes nativas fazem parte de uma prática agroecológica que dispensa venenos e produtos geneticamente modificados. “O que faz mal é essas coisas que compra no mercado, que tem veneno, tem tudo. A nossa [plantação] não tem nada de veneno”, diz.

A relação diária com a terra só não é ainda melhor porque o pedaço de chão para cada família é pequeno, diz Dona Vani. “A terra foi tomada, não tem nem lugar pra plantar uma lavoura que preste, daí sobrou bem pouco que não dá. Se a gente plantar toda hora a terra enfraquece e não dá mais nada”. Herdeiros de trabalhadores escravizados da Fazenda Capão Alto, as 50 famílias residentes na comunidade, algumas instaladas em casas de piso de terra batida e de tijolos feitos da mistura de argila, água e areia, aguardam a publicação da portaria de reconhecimento do território quilombola.

Mulheres que organizam o território
Em processo da titulação da área mais avançado do que a Serra do Apon, as 56 famílias da Comunidade Quilombola João Surá, localizada no Vale do Ribeira (PR), aguardam a publicação do decreto de desapropriação – etapa em que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) inicia o procedimento de desapropriação de imóveis privados que estejam dentro do território da comunidade.

Mesmo diante do mais alto representante do Executivo, que no discurso “nenhum palmo de terra para quilombolas” e na prática mostra-se oponente à garantir o que é de direito das comunidades, as mulheres quilombolas de João Surá seguem adiante, no esforço diário em garantir a vida no território.  “As mulheres estão ali, no dia a dia produzindo alimento pra subsistência e para comercializar. Parte é professora da comunidade”, diz a jovem Carla Fernanda Galvão Ferreira.

Com o trabalho dos homens na lida nas fazendas fora da comunidade ou no Parque Estadual das Lauráceas, tem sido as mulheres que pensam a comunidade e organizam o território. “Nos últimos anos a gente tem percebido que as mulheres tem tomado mais este espaço de organicidade da comunidade – mais a frente na igreja, na associação, na tarefa de ir pra fora e buscar recursos para comunidade”, conta Carla. Presidem a associação, são maioria nas reuniões e as que batem à porta do prefeito quando reivindicam um médico ou uma escola.

Foto: Thaís Eigenmann

Essas mulheres cuidam da comunidade toda, de todos, dos filhos, dos netos, dos sobrinhos. Cuidam de pessoas com deficiência e muito bem. Elas plantam o que a gente come, colhem, trabalham fora, estudam. Se tem uma coisa que mulheres quilombolas são é que são fortes porque aprendem a sobreviver dia a dia”, diz a estudante em direito, Isabela da Cruz. Ela, uma liderança e integrante da Comunidade Paiol de Telha – a primeira do Paraná a ter o título parcial da território – relata a conjugação de um cotidiano de mulheres que contempla a roça, a lida, os estudos, a maternagem, a denúncia e não aceitação das violências e a resistência, em primeiro lugar.

 “A sociedade nos obrigada a sermos múltiplas.  Uma mulher quilombola não pode se dar ao luxo de não saber se defender, por exemplo. São diversas ameaças que se dão a todo momento, o dia todo, e isso nos torna mais forte. Isso não é pra ser romântico ou bonito, mas nos torna mais fortes. O calo serve para alguém coisa, não é só pra dizer sobre o tanto de trabalho, ele serve pra proteger a pele de tanto ser esfolada. Ainda assim, a gente resiste, faz festa, faz encontros bonitos como este”.



Ações: Quilombolas