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Festa das sementes e mudas quilombolas: produtos que curam, alimentam, respeitam o meio ambiente e geram renda


Quilombolas de comunidades rurais do Paraná relatam como estabelecem uma relação harmônica com a terra e que o alimento que provem dela.

Comunidades quilombolas reunidas em Castro (PR) comercializaram produtos e compartilharam conhecimentos tradicionais. Foto: Lizely Borges

Não apenas as mesas de exposição e comercialização dos produtos trazidos por comunidades quilombolas do Paraná e de São Paulo para a Festa Estadual de Sementes e Mudas Quilombolas, realizada em Castro (PR) no último domingo (21), que evidenciavam o manejo sustentável da terra e o conhecimento tradicional sobre plantas e alimentos. Cada espaço da Feira – das atividades paralelas da programação do evento, bem como cada roda de conversa espontaneamente formada – era um momento de troca e reafirmação da riqueza de saberes dos trabalhadores rurais quilombolas do estado.

A agenda é parte de uma sequência de feiras pelo Paraná (veja abaixo) e foi organizada pela Federação Estadual das Comunidades Quilombolas (Fecoqui), em parceria com a Rede Sementes da Agroecologia (Resa) e a Terra de Direitos. Mais de 15 comunidade, de ao menos nove municípios paranaenses, circularam pelo espaço, expuseram e comercializaram seus produtos e relataram de que forma estabelecem uma relação com a terra que não apenas as alimenta, como também provem seus sustentos.

Em paralelo à reivindicação das 38 comunidades quilombolas ao Estado brasileiro pela titulação da integralidade dos seus territórios e realização de denúncias da morosidade no avanço dos processos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) – autarquia responsável pela titulação – as famílias seguem reorganizando as práticas internas para reprodução dos seus modos de vida.

“Você sabia que este feijão ajuda [no tratamento da] na diabetes?”, pergunta Divanil dos Santos Soares. Quilombola da Comunidade Invernada Paiol de Telha, localizada no município de Reserva do Iguaçu (PR) – a primeira do Paraná a conquistar o título parcial do território – a trabalhadora rural “desde sempre”, aprendeu sobre o uso medicinal das plantas com o pai. “A gente se criou trabalhando na roça e esses conhecimentos vem dos antigos. Meu pai dizia: isso [determinada planta] é bom pra tal coisa, isso pra outra”, relata.

Dona Divanil conta que os saberes herdados do pai serviram para tratar o “amarelão” da filha, a própria sinusite que as vezes a acomete, a gripe da família, entre outras coisas. “Já derrubei pedra do rim e fiquei forte depois de um câncer no útero, com o uso dos remédios da terra”, resgata. Até mesmo a Comunidade a consulta, com frequência, para lidar com as doenças dos animais. “Se você leva [os animais] pro veterinário eles dão remédio que é muito caro. Como a gente não tem condição [de comprar] eu fui aprendendo com as coisas da terra. Tem um monte de gente que vem me perguntar”, relata.

Em resposta sobre como observa o crescente uso dos medicamentos pelos sociedade ela diz se sentir feliz em poder tirar da terra o produto curador. “Eu fico feliz em contar pras pessoas sobre os chás, os xaropes. Prefiro tomar remédio do mato, faz melhor”, diz.

A “guardiã das sementes”, Vani Rodrigues dos Santos, a Dona Vani, também aprendeu com o pai o valor das sementes tradicionais e do cuidado da terra como condição para uma vida saudável. A senhora de 74 anos, referência de saberes agroecológico da Comunidade Quilombola Serra do Apon, localizada próxima de Castro, seleciona as melhores sementes e as guarda para os próximos anos, usa do que a natureza gera – como gravetos, folhas – para adubo das plantas e mantem suas plantações longe de agrotóxicos e outros insumos químicos. “O que a gente planta pode comer sossegado”, diz, orgulhosa da plantação que cuida do corpo e do meio ambiente. “O que faz mal é essas coisas que compra no mercado, que tem veneno, tem tudo. A nossa [plantação] não tem nada de veneno”, diz.

As 50 famílias residentes na Comunidade aguardam a publicação da portaria de reconhecimento do território quilombola pelo Incra.

Cestarias elaboradas pela Comunidade Quilombola de Saputu. Foto: Lizely Borges

Aproveitamento dos materiais
Além dos alimentos in natura, artesanatos, pães e bolos comercializados durante a Festa de Mudas e Sementes, as cestarias construídas pela Comunidade Quilombola de Sapatu, localizada em Eldorado (SP) atraíram a atenção do público. De centralidade da produção de banana e hortaliças, algumas comunidades quilombolas localizadas no Vale do Ribeira, fazem do turismo e da venda de artesanato uma complementação à renda. A cestaria, além de oportunizar o melhor aproveitamento do cipó e da fibra da bananeira, se materializa em jogos americanos, adornos diversos, cestas, estrutura de luminárias e outros materiais. O ramo produtivo é tão importante para a geração de renda que é contemplado pela Coopervale, a cooperativa das comunidade do Vale do Ribeira.

De acordo com o artesão Ivo Santos Rosa, do Quilombo de Sapatu, os produtos são comercializados em feiras e eventos pelo estado de São Paulo e arredores. “O trabalho é feito com muita consciência”, diz Ivo sobre a adoção de práticas sustentáveis para a Comunidade. “A gente recebe muitos grupos na Comunidade. Fazemos um trabalho educacional pra contar sobre a existência da Comunidade e como a gente lida com a terra”, complementa.

Momento da troca das sementes. Foto: Thaís Eigenmann

Troca de sementes
Como elemento de integração entre as Comunidades quilombolas presentes, as pessoas depositaram sementes de diversas espécies em uma peneira. No momento seguinte, a Dona Vani – em celebração ao encontro e as trocas oportunizadas – percorreu o espaço da Feira para distribuição de sementes tradicionais para cada uma das pessoas presentes. “Se a gente plantar estas sementes vamos caminhar juntas na preservação dos saberes, juntos na luta”, declararam os organizadores da atividade.

Agendas para troca de sementes no Paraná.
Confira os locais onde acontecerão os próximo eventos:

Dia 27 de julho – Ponta Grossa
11ª Celebração da Vida

Dia 9 de agosto – Tomazina
07ª Festa de Sementes Crioulas Indígenas Ymau na Terra Indígena Pinhalzinho

Dia 16 e 17 de agosto – Rebouças
17ª Festa Regional de Sementes Crioulas

Dia 17 de agosto – Vale do Ribeira
12ª Festa de Sementes dos Quilombolas

Dia 25 de agosto – Pinhais
Festa das Sementes

Dia 29 de agosto a 1 de setembro – Curitiba
18ª Jornada de Agroecologia

Dia 31 de agosto – Ortigueira
Festa das Sementes

Dia 7 de setembro - Guaraqueçaba
Festa das Sementes

Dia 14 de setembro - Mandirituba
Festa das Sementes

Dia 21 de setembro - Castro
2ª Feira de Sementes Crioulas



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