Um ano após reconhecimento, Quilombo João Pereira (PA) fortalece luta por justiça climática
Lanna Paula Ramos
Formação sobre clima, políticas climáticas e COP 30 amplia conhecimentos da comunidade pressionada pelo agronegócio
Em maio de 2024, a comunidade quilombola de João Pereira, localizada em Santarém, no oeste do Pará, recebeu sua certificação de autodefinição pela Fundação Cultural Palmares. Mas a resistência do território contra as desigualdades sociais e o racismo ambiental é antiga. Na quarta-feira, 23 de julho, a luta ganhou novo fôlego com a realização da formação “O que povos e comunidades tradicionais precisam saber sobre a política climática e COP 30?”, promovida pela Terra de Direitos em parceira com a Federação das Organizações Quilombolas de Santarém (FOQS) e a associação da comunidade.
Vice-presidente da associação da comunidade, Waldines Pereira destaca a importância de formações em temas fundamentais na atualidade, como é o caso das mudanças climáticas.
“Muita gente não se preocupa com esses acontecimentos das mudanças climáticas, mas é muito importante trazer esse esclarecimento para a nossa gente porque hoje estamos vivendo em um país já afetado pelo clima”, afirmou Waldines.
A formação aconteceu na Escola Santo Inacio, localizada na própria comunidade, distante cerca de 28 km do centro de Santarém, na região conhecida como planalto santareno, na rodovia BR-370. Do outro lado, João Pereira faz limite com o Lago do Maicá, um braço do rio Amazonas onde estão localizadas diversas outras comunidades quilombolas da região.
Franceli Ribeiro, quilombola e professora da escola da comunidade, participou da formação e relatou os impactos que grandes empreendimentos do agronegócio tem no cotidiano das famílias da comunidade.
“Eu sou filha de pescador e a gente sabe o que esses portos e plantações causam na vida das pessoas. É um grande desmatamento, uma grande poluição e são muitas coisas que vem acontecendo. As mudanças climáticas vão nos atingir. Justamente nós que pouco contribuímos para a crise do clima, mas que somos os que mais sofrem com tudo isso”, disse.
João Pereira é uma das 13 comunidades quilombolas certificadas do município. Assim como outras comunidades tradicionais da região, a comunidade enfrenta a pressão crescente do agronegócio, com o avanço das plantações de soja e milho e da infraestrutura portuária em Santarém.
De acordo com levantamento Portos e Licenciamento Ambiental no Tapajós, da Terra de Direitos, o número de empreendimentos portuários na região dobrou em dez anos, saindo de 20 para 41 entre 2013 e 2023.
Os impactos diretos sobre as comunidades incluem odesmatamento, poluição das águas, escassez de pescado e perda de acesso ao rio, afetando práticas tradicionais como a pesca artesanal e a agricultura familiar, que são os pilares da segurança alimentar local.
Waldines Pereira também refletiu sobre o avanço do agronegócio e a importância da informação e da conscientização da comunidade diante da intensificação da crise climática.
“Nós estamos aqui na nossa região amazônica, aqui dentro da Santarém, a gente vê esse impacto direto. O desmatamento que a gente ver em torno da região tem avançado cada dia mais e com isso encontramos problemas sérios, principalmente a questão de saúde, problemas respiratórios, da água e do pescado que estão ruins e escasso. Isso é uma questão de conscientizar o povo para a luta pelos nossos direitos dentro dos nossos territórios”.
A formação abordou a relação entre os impactos socioambientais percebidos dentro do território e as mudanças climáticas globais, além de apresentar as políticas climáticas e o que está em debate na preparação para a COP 30, que será sediada em Belém em novembro.
“Os territórios quilombolas sentem diretamente os impactos das mudanças climáticas. Os ciclos dos plantios e das colheitas foram alterados, a pesca já não é a mesma, houve grande interferência no modo de vida dessas populações que são as que mais preservam a natureza. A formação sobre clima teve a proposta de partilhar com os territórios, de forma didática, informações essenciais sobre mudanças climáticas e participação na COP-30", ressaltou Selma Corrêa, assessora jurídica popular da Terra de Direitos que foi uma das facilitadoras da formação.
Ciclo de formações
A formação na comunidade João Pereira faz parte de um ciclo de atividades que a Terra de Direitos vem promovendo junto aos territórios de diversas regiões do Brasil tendo como base a cartilha “O que povos e comunidades tradicionais precisam saber sobre a política climática e COP 30?”, elaborada pela organização.
No Pará, as formações são realizadas em parceria com a FOQS e até o momento já ocorreram nos territórios de Maria Valentina (comunidade Nova Vista do Ituqui), Pérola do Maicá e João Pereira.
Nos próximos meses a iniciativa alcançará também as comunidades do Tiningú e de Saracura, ampliando e fortalecendo as reivindicações dos quilombolas por justiça climática.
No Paraná, uma edição da formação foi realizada em Curitiba, nos dias 15 e 16 de julho, reunindo quilombolas, indígenas e agricultores. Em agosto, será a vez das comunidades de apanhadoras de flores sempre vivas do Cerrado, em Minas Gerais, com o apoio da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (CODECEX)
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